A TRAJETÓRIA DE ADRIANO MANGIAVACCHI
   

O italiano Adriano Mangiavacchi, 45 anos, é um pintor de pouca idade e de muitas fases. No caso, vida e obra tem certa correlação. No início estuda escultura no Museu Borghese, desenha e pinta. Em 1960 desentende-se com Roma e deixa o clima mediterrâneo da Doce Vita, vai para Milão ser desenhista na Alfa Romeu. Milão e a boêmia se completam. Abre um ateliê perto do Duomo e se apaixona pela fotografia de Cartier Bresson. Em 1968, estuda cinema e vive ao Deus dará. E Deus deu. Em 1970 parte para o Rio à procura de algo diferente, uma mania como outra qualquer. Poderia ser Taiti, mas não foi. Entra na Engenharia da Fiat até que conhece, em 1975,o pintor Luiz Áquila, pipineira de talentos. Os dois se entendem. Áquila mostra que ele é muito mais pintor que engenheiro. E Mangiavacchi acredita com razão. Dois anos depois, Adriano assume de fato a pintura e passa a frequentar o Atelier Livre de Pintura, onde faz amizade com Paulo Garcez. O destino está traçado. Em 1982 explode em Mangiavacchi, uma fase erótica. Mas logo sua pintura trepidante, abstrata e harmoniosa decide-se pela mancha informal em largas e espontâneas pinceladas de rosas e outros tons requintados. Tenta com isso interpretar a vida agitada das cidades, os grafites dos muros, o encanto indefinível das cidades ainda silenciosas. Olha outdoors, vitrines de liquidação, fixa o fremente palpitar da vida que passa. Mas tudo vê com calma e atenção, procurando fixar o infinito característico das ruas: o odor, o amor, a variedade das emoções coletivas. Surgem vultos vagos de personagens em tons mais fortes, mas que não são propriamente personagens, são imagens humanas difusas, mais espírito e ação do que corpo.

 

Texto de Flávio de Aquino, publicado na Revista ”The Voice”

em 1986 sobre a exposição na Galeria Saramenha.