O CAOS INFANTIL DE ADRIANO

 

    

A galeria Saramenha está expondo obras do artista Adriano Mangiavacchi, dois anos depois de tê-lo apresentado pela primeira vez em um espaço comercial. Até então, Adriano participara sobretudo de Salões, tendo recebido o prêmio de pintura do 9º Salão Carioca em 1985, além de uma individual no Parque Lage, em 82. Nascido em Roma, o artista transferiu-se para o Brasil em 1970, trabalhando como engenheiro da Fiat. Mas a inclinação para a arte, que sentira desde jovem quando conheceu as esculturas e os afrescos do Museu Borghese, iria declanchar justo no Brasil, em meados dos anos 70, quando passa a frequentar o ateliê de Luiz Áquila, em Petrópolis. Na virada da década, Adriano Mangiavacchi abandona a engenharia e assume a pintura como profissional. Os primeiros passos no sentido de encontrar uma linguagem pessoal e certa disciplina de trabalho foram dados junto a Paulo Garcez, no então Ateliê Livre da Armação. De lá para cá, o artista cresceu de uma forma bastante consistente, sobretudo considerando-se o objetivo que traçou para sua própria pintura, que é o de unir a figura e a abstração.  A matéria com a coisa sígnica, o que nem sempre foi bem sucedido entre muitos que o tentaram. Recentemente tivemos dois bons exemplos de uma preocupação semelhante, nos desenhos de Elizabeth Jobim e nas telas de Adriana Varejão, mas há um número razoável de outros que não conseguem uma síntese entre o expressionismo abstrato e a figuração.

    

Das primeiras telas que Adriano apresentou, ainda em 1982, às de agora, a questão é basicamente a mesma: um foco central e simbólico sobre a figura humana, em sua dimensão existencial dilacerada, ansiosa e ambígua. Em virtude do drama humano ilustrado, a matéria da pintura ganha um corpo saturado, fragmentado e explosivo, fazendo da abstração um veículo para a apresentação do caos. Mas , nas telas do início dos 80, essa ambiguidade entre a figuração e a expressão abstrata era frágil e Adriano ainda não conseguia atacar a superfície por inteiro, separando explicitamente o espaço da figura e a área de fundo. Os trabalhos que apresenta agora na Saramenha, bem mais informados por De Kooning e Vedova – fontes recorrentes de observação para Adriano, a figura está integrada à trama colorística e a tela é toda ela, impregnada pela atmosfera libertária com a qual o artista pretende guiar seus movimentos. O drama não é mais anterior ao quadro e apenas ali projetado. É o quadro que institui o drama, pictoriamente.  A pintura é agora um conjunto de mancha de cor, intensas. Fraturadas, sem qualquer esquema de ordem. A matéria não se ajusta a um só plano de projeção, ela se desdobra em múltiplos planos que se sobrepõem incessantemente, carregando a cor na sua materialidade. Para se reencontrar com uma condição natural, de liberdade, a pintura de Adriano não ficou restrita à gestualidade de De Kooning ou às manchas dramáticas de um Vedova, por exemplo, e foi também procurar o imaginário infantil e o tipo de desprendimento das crianças ao lidar com o espaço e as cores. O artista confessa:
  

– Foi nos desenhos de meu filho Leonardo que eu descobri como me aproximar da tela sem uma ideia prévia. Era aquela liberdade – de sentir o espaço no contato direto com ele – que eu procurava. No desenho infantil, cada risco, cada emaranhado de cor pode ser tudo: o pai, a mãe, a casa, o cachorro. O imaginário da criança está todo ali, mesmo que o outro não perceba, ou porque esqueceu.
    

O reencontro com a espontaneidade primitiva e instintiva da criança não teria entretanto repercussões maiores na pintura de Adriano, se ele não filtrasse esse sentimento de liberdade pelas amarras da sua consciência adulta e , principalmente,pela compreensão do fenômeno pictórico. Com muitas dúvidas sobre os limites que essa nova conquista poderá lhe trazer, apesar do caráter expansivo que sua pintura adquiriu, Adriano chega a se perguntar, em alguns casos, se o trabalho estaria realmente “pronto”. Mas talvez seja exatamente alimentando esse tipo de ansiedade, afinal aparente na superfície das telas, que ele possa seguir adiante, atrás de outras respostas.


Texto de Ligia Canongia, publicada no Jornal “O Globo” em 20 de novembro de 1988, sobre a exposição na Galeria Saramenha.